Engrenagens que se movem em risco

A custa de muito esforço, o grupo cearense Teatro Máquina fará temporada no Festival Internacional de Edimburgo, um dos maiores eventos de arte do mundo

Danilo Castro para a Coluna Imagem & Movimento – Caderno Vida & Arte – Jornal O POVO



Espetáculo Leonce e Lena - Teatro MáquinaLeonce e Lena fará 22 apresentações na Escócia. Foto de Davi Lázaro

O Teatro Máquina passou pelo Festival Cena Brasil Internacional, que aconteceu em São Paulo e no Rio de Janeiro em junho de 2012. Dentre os 23 grupos participantes por curadoria, o coletivo foi um dos seis selecionados para se apresentar este ano nos festivais de Avignon, na França, e de Edimburgo, na Escócia. Ambos os eventos já possuem mais de 60 anos de realização e estão entre as maiores mostras de artes do mundo. Na época, Sérgio Saboya, organizador do festival brasileiro, vislumbrava verba pública para financiar os grupos no exterior, entretanto o esforço não vingou.

Ao lado dos grupos Armazém Cia. de Teatro, Amok Teatro, Caixa do Elefante, Teatro de Bonecos e Gilberto Gawronski, o Teatro Máquina arregaçou as mangas e assumiu o risco, financiando-se nesta ação. É o momento mais expressivo da primeira década de existência do Máquina e de grande visibilidade para o teatro de grupo brasileiro na cena internacional. Por isso a importância de firmar parcerias com instituições públicas ou privadas que possam arcar com parte das despesas. Investir em grupo de teatro do Brasil é investir no desenvolvimento da cultura nacional.

Mas, viajar com uma produção teatral não é tão simples. Foi preciso escolher para reduzir os custos. Avignon foi deixada de lado e Edimburgo tornou-se a próxima morada dos grupos durante agosto. O espetáculo Leonce e Lena, que reestreou em nova versão no ano passado, fará 22 apresentações em solo escocês. A custo de muito esforço, o grupo abre as portas da cena internacional para chegar com a cearense. Por e-mail, a diretora Fran Teixeira e o ator Levy Mota responderam coletivamente ao O POVO, em nome do Máquina, sobre as expectativas para o projeto.

O POVO – Quando o Teatro Máquina soube da seleção para o Festival Internacional de Edimburgo, que medidas foram tomadas para a captação de recurso?

Teatro Máquina – Desde julho de 2012, estivemos em contato (nós e os outros cinco grupos brasileiros) com a Galharufa Produções, produtora carioca que concebeu o festival e sua extensão. Acompanhamos todas as tentativas de captação de recursos. A dificuldade é grande, a produtora não conseguiu apoio ou patrocínio, seja com o governo ou setor privado.

OP – E o Teatro Máquina ou os outros grupos conseguiram parceria com instituição pública ou privada de maneira independente?

Máquina – Mesmo ainda sem qualquer sinalização de investimento público ou privado, os grupos decidiram investir eles próprios na viagem. A Galharufa Produções também está investindo. O Brasil praticamente não tem representação nos festivais de Edimburgo e Avignon, que são os dois maiores do mundo. Esta iniciativa, de realizar uma mostra com seis grupos brasileiros nos festivais internacionais, é muito importante para abrir oportunidades ao teatro brasileiro em festivais desta ordem. Infelizmente, o Governo Federal até agora não firmou aporte financeiro ou logístico ao projeto. E todos os órgãos que teriam competência para tal foram solicitados, muitas vezes em reuniões presenciais, em Brasília.

OP – Qual o investimento médio para uma viagem deste porte?

Máquina – O formato solicita que os grupos e artistas interessados em participar arquem com todos os custos desde hospedagem, passagens, alimentação, até a locação do teatro, equipamento de luz, etc. O orçamento do projeto todo gira em torno de R$ 800 mil.

OP – A verba que o Teatro Máquina está investindo hoje é condizente com sua realidade?

Máquina – Quando topamos participar de uma ação desta dimensão, assumimos um compromisso financeiro que não corresponde ao que temos realmente condição de fazer, se formos pensar com os pés no chão. É um valor que não podemos pagar, mas que assumimos por apostar na sua importância. Esperamos ainda poder estabelecer um diálogo sensível com o Governo do Estado do Ceará e com a Prefeitura de Fortaleza para o apoio à nossa participação no projeto.

OP – Essa, sem dúvida, é a decisão mais importante do grupo nestes 10 anos de trajetória. Quais ganhos o Teatro Máquina pode conquistar após esse investimento?

Máquina – O teatro se alimenta do risco. Arriscamos porque acreditamos que a viagem possa promover experiências inaugurais para o grupo. Fazer temporada contínua (estaremos em cartaz de segunda à sábado, durante um mês) é um tipo de experiência que não temos oportunidade de passar no Brasil, muito menos em Fortaleza, onde mal conseguimos fazer temporadas mensais. Nada é tão importante para o crescimento de um espetáculo do que apresentá-lo ao público. O contato com um público completamente diferente é outro ganho para o grupo e para o espetáculo. Além disso, no festival estarão presentes curadores e programadores dos mais importantes festivais e casas de espetáculos do mundo todo, então há ainda a possibilidade de vendermos o espetáculo para outros países. É uma realidade de produção que nos interessa, pelo desafio e pelo risco.

Multimídia

Saiba mais sobre o Festival Internacional de Edimburgo em:
http://www.eif.co.uk

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