Pequenas ações não são ações pequenas

Transformação cultural: como o investimento em manutenção de grupos pode se tornar estratégia fundamental para difusão das artes em espaços desinstitucionalizados

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Danilo Castro
ESPECIAL PARA O POVO

Na esquina da rua João Lobo Filho com rua José Euclides, no Bairro de Fátima, toda última quinta-feira do mês, à noite, algo efervesce. Do lado de fora, um grupo de curiosos observa o desabafo sentimental do artista visual Max Uchôa, que registrou sua arte na fachada da casa. No quintal, As Travestidas Verónica Valenttino (Jomar Carramanhos), Yasmin Shyrran (Diego Salvador) e Deydianne Piaf (Denis Lacerda) se jogam em números de canto, dança e dublagem. Em seguida Thiago Arrais improvisa em uma espécie de “leitura-show” ao som do violão de Bob (Ayrton Pessoa).

Na sala de ensaio, o dramaturgo Rafael Barbosa apresenta-se em um texto seu, que relata os causos sexuais de uma mulher histriônica. Márcio Medeiros dança seu Desespero para Felicidade ou Se Eu Não Gostar Nada é Para Sempre. Diego Landin faz a leitura dramática de um conto perdido em sua gaveta. A cozinha da residência se transforma no Bar do Edi, gerenciado pelo ator Edivaldo Batista com direito a cerveja e cachaça a preços de botequim. Na sala de estar, o bazar Delorrette, da atriz Loreta Dialla, traz roupas femininas para quem curte o estilo vintage. Nas paredes, quadros e cartões postais da fanzineira Fernanda Meireles estampam o ambiente.

Estas são apenas algumas das atrações que já passaram pelo projeto Pequenos Trabalhos Não São Trabalhos Pequenos, encabeçado pelo grupo Teatro Máquina, na Casa da Esquina. O acesso é completamente gratuito e, neste mês, o evento chega a sua oitava edição. A ideia saiu do papel em agosto de 2012 como uma forma de abarcar os ideais do grupo em transformar sua sede num espaço cultural de diálogos e encontros aconchegantes entre artistas e admiradores. Algumas obras, se for desejo do autor, podem ser vendidas para o público.

Para participar com alguma intervenção audiovisual, teatral, de dança, música, artes plásticas ou qualquer outra linguagem resultante da intercessão destas, a casa abre as portas para a experimentação. A curadoria é feita através de um “disparate” onde o interessado responde algumas perguntas simples e envia imagens do seu “pequeno trabalho”. O Teatro Máquina está na Casa da Esquina, ocupada também pelo Grupo Bagaceira de Teatro, desde 2009. Mesmo há tempos sem vencer editais a nível municipal e estadual, o grupo vem desenvolvendo suas atividades em interação com a comunidade no entorno e com a classe artística.

Manutenção

Quando coletivos de arte, através dos seus movimentos organizados, reivindicam espaços de trabalho, não significa que querem políticas públicas para o próprio umbigo. A cultura deve ser compreendida como um direito a qualquer cidadão, por isso é uma obrigação governamental. Estabelecer parcerias com ativistas e produtores culturais, que conhecem a realidade de perto, é estratégia fundamental. Em Fortaleza, o Movimento Todo Teatro é Político e o Movimento Arte e Resistência levantam a bandeira das sedes grupais. A nível nacional, o Movimento Redemoinho encabeça discussões buscando o fortalecimento destes coletivos artísticos que se desdobram para manter vivos seus espaços de cultura.

É preciso compreender que suas reivindicações às pastas de cultura local e estadual não são apenas para sanar as angústias e vontades de artistas sedentos por trabalho. Isso porque são iniciativas maiores, de transformação social. Os ganhos, a médio e longo prazo são principalmente para a população – não só para os artistas. Tais ações, como a que é capitaneada pelo Teatro Máquina, dão um retorno qualitativo à sociedade, promovendo fruição artística sistemática, intervindo e transformando uma comunidade e um cenário cultural. Por isso, o investimento em manutenção de grupos pode render muito mais à Capital e ao Estado que o simples investimento em produtos culturais.

SERVIÇO

Pequenos Trabalhos Não São Trabalhos Pequenos, do Teatro Máquina
Quando: Toda última quinta-feira do mês, a partir de 18 horas
Onde: Casa da Esquina (rua João Lobo Filho, 62 – Bairro de Fátima)
Outras informações: 3067 6343

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