A cena teutobrasileira

Danilo Castro para o Caderno Vida e Arte – Jornal O POVO

A convite do cinquentenário da Casa de Cultura Alemã, o grupo cearense Teatro Máquina reestreia hoje o espetáculo Leonce e Lena, de George Bücher, fortificando laços entre Alemanha e Brasil

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Em outubro de 1962, nascia a Casa de Cultura Alemã, fundada por Martins Filho, à época, reitor da Universidade Federal do Ceará (UFC). Prestes a completar meio século de história, entre intercâmbios e promoção da cultura germânica no Ceará, a casa que recebeu tantos estudantes comemora sua trajetória com vasta programação que segue até 10 de dezembro. O espetáculo Leonce e Lena, do grupo cearense Teatro Máquina, volta aos palcos após sete anos da estreia original. A nova versão do trabalho marca início da programação.

Leonce e Lena é uma das últimas obras do dramaturgo alemão George Bücher, que morreu prematuramente, aos 23 anos, mas deixou um grandioso legado à literatura alemã. Em 2005, por sugestão da teatróloga Ingrid Koudela, o grupo Teatro Máquina se apropriou do texto e partiu para a cena. Após dois anos, o espetáculo saiu do circuito. Agora, com quase uma década de existência, o grupo retomou a obra, mas em nova versão. “Não é uma remontagem. É bom poder retomar o texto que não trabalhávamos há tanto tempo, mas não somos mais as mesmas pessoas, ainda bem. Temos muitas outras referências e vontades que são difíceis de deixar de lado”, explica Fran Teixeira, diretora do grupo.

Sua relação com a Casa de Cultura Alemã começou ainda nos tempos de faculdade, na década de 1990, quando era frequentadora assídua das atividades propostas pelo espaço. Nos últimos anos, Fran tem fortificado os laços que construiu. “Lá é um lugar de convívio, é muito agradável. Eu vivia lá, assistia filmes, participava bem ativamente”, revela. Em 2003, quando montou seu primeiro espetáculo à frente do Máquina – Quanto Custa o Ferro?, de Bertolt Brecht – a coordenadora da Casa na época, Wiebke Rödben, assistiu e convidou o grupo para se apresentar no espaço. “Eles foram nossos primeiros apoiadores oficiais”, lembra.

O Máquina, também por convite da Casa, fez uma leitura dramática de Jim Knopf e Lucas, o maquinista, do alemão Michael Ende. Em 2010, a leitura se transformou no espetáculo João Botão, primeiro infantil do grupo. “A relação com a literatura alemã se confunde com minha própria vida”, confessa Fran. A atual coordenadora da Casa, Ute Hermanns, não mede palavras para atestar o talento da diretora. “Ela consegue trabalhar as obras alemãs, mas trazendo toda uma identidade do grupo. Fran é uma artista única no Ceará”, afirma.

A ideia era que o espetáculo ficasse pronto para comemoração dos 10 anos do Teatro Máquina, mas com o cinquentenário da Casa, o espetáculo adiantou-se. Por coincidência, em 2013, será também o centenário de morte do George Bücher. O grupo já se prepara para um novo espetáculo baseado nos fragmentos que compõem a obra Der Untergang des Egoisten Johnann Fatzer, também de Brecht. “A literatura alemã é muito objetiva, impactante, inspiradora, me faz pensar em muitas imagens”, confessa Fran.

Ute Hermanns explica que a Casa nunca serviu para trazer unilateralmente a cultura germânica ao País. Segundo ela, a ideia é sempre dialogar, encontrar onde uma nova cultura se estabelece no encontro entre brasileiros e alemães, por isso os ganhos na parceria com o Teatro Máquina. “Temos que caminhar pelos interesses dos parceiros, dialogando com a comunidade. É melhor quando você responde aos desejos da comunidade. Dessa forma você também alcança um público maior. Isso é que é frutífero”, conclui.

A remontagem
A trama de Leonce e Lena tem como mote a história de dois jovens nobres: o príncipe Leonce, do Reino de Popo e a princesa Lena, do Reino de Pipi. Ambos estão prometidos em casamento, mas fogem porque rejeitam essa ideia. Entretanto, por acaso, encontram-se e se apaixonam, sem chegar a conhecer suas identidades. Essa é a única comédia de George Bücher e a primeira do Teatro Máquina. “O Leonce é uma figura melancólica, pessimista, de caráter bem romântico. Ele louva a morte como um caminho para a liberdade, mas isso tudo é uma sátira ao romantismo”, explica.

Na versão primária, os patins e o traje de esportistas chamavam atenção na encenação de um texto clássico, mas com uma proposta estética contemporânea. Em 2012, apesar das significativas mudanças, o caráter de cena-jogo continua mantido. “Na estreia, vai ser numa versão com tênis, em novembro será com patins”, adianta Fran. O grupo agora está mais livre, maduro, fazendo paródias de si mesmos, da versão anterior. “Temos uma cenografia simples, trabalhamos com a ideia de campo livre, com poucos elementos que se transformam no que a gente precisa. Os atores assumem o lugar de jogadores”, complementa a diretora. Outra novidade é que, dessa vez, a música é executada ao vivo por Felipe de Paula e Levy Mota.

SERVIÇO

Leonce e Lena
Onde: Theatro José de Alencar – Rua Liberato Barroso, 525 – Centro
Quando: Dias 3, 4, 5 e 6 de outubro de 2012 às 19 horas
Quanto: R$10 (inteira) R$5 (meia).
Capacidade: 300 lugares
Outras info.: (85) 8658 0246

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