Teatro Máquina e as peças que compõem uma paisagem (por Astier Basílio)

É possível fazer um espetáculo infantil sem lançar mão de uma grande interação, com constantes brincadeiras, sem tanta música, usada para aliviar a tensão e, além disso, tratar de um tema complexo sem relativizações? O Teatro Máquina, conhecido pelo vigor e ritmo de espetáculos como Cantil e Ivanov, conseguiu imprimir sua poética também para a montagem de João Botão.

A peça é uma livre adaptação do romance Jim Knopf e Lucas, o maquinista. O autor do livro é o alemão Michael Ende (1929-1995) mais conhecido por outra obra sua História sem fim, adaptada para o cinema em 1984, numa co-produção alemã e norte americana dirigida por Wolfgang Petersen.

O que fazer quando o mundo se desorganiza? No país chamado Pequeno tudo funciona sem qualquer questionamento ou distúrbio. O que metaforiza bem a condição repetitiva e quase automática daquele mundo se dá pela reiteração dos gestos que se reproduzem, do cotidiano dos personagens – é como se tudo acontecesse sem qualquer novidade, como se “dias iguais”, aqui tomando de empréstimo um verso de Chico Buarque, se sucedessem. Além da música. Cantada em algo que parece um gramelô, com seus volteios e bem sublinhada pelos personagens, o Rei, o Gravatinha, o Maquinista e a Dona da Quitanda, interpretados, respectivamente, por Aline Silva, Levy Mota, Edivaldo Batista, Ana Luiza Rios, além de Loreta Dialla, que faz um carteiro, que surge para entregar uma encomenda de desestabiliza o reino.

Em um pacote do correio, endereçado a uma antiga moradora, um bebezinho é enviado a Pequeno. Batizado de João Botão, sua presença é motivo de discórdia. É que não há mais lugar para um novo habitante naquele país. Deste problema surge uma questão que fundamenta o espetáculo todo. Quem deve sair? Como alterar um universo, aparentemente fechado, para que se dê lugar ao novo?

De maneira lúdica e sem baratear os procedimentos estéticos, “João Botão” não subestima o poder de compreensão das crianças e apresenta uma fábula poderosa em que se discute de maneira simples e direta questões complexas como, numa possibilidade de leitura, o tamanho e a importância do estado, ou do poder constituído, na vida das pessoas ou ainda o que é possível se desmontar em uma estrutura que parece pronta, acabada e imutável?

O fato de que a resolução dramatúrgica para o problema se dá com a reformulação do cenário, poetizando para a solução de reforma do tamanho de cada um dentro da cidade, do país, acentua ainda mais a poeticidade e o lirismo da montagem, que constituiu o cenário com peças agrupáveis, o que remete ao famoso brinquedo lego.

Impossível mensurar qual será a recepção dos mais diversos públicos, infantis, à montagem, se a aposta por uma montagem mais apolínea, mais enxuta tem conferido o resultado almejado pelo grupo é uma questão que, certamente, tem sido levado em conta pela Teatro Máquina.

Um espetáculo inteligente cuja fábula é engendra tanto a imaginação e o ludismo das crianças como dos adultos.

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