Máquina de exportação

Danilo Castro para o Caderno Vida e Arte – Jornal O POVO

O grupo cearense Teatro Máquina foi o único do Nordeste selecionado para os Festivais de Avignon, na França, e de Edimburgo, na Escócia. Agora é preciso trabalhar duro para conquistar a cena no exterior.

Qual é o lugar das artes cênicas cearenses? O Teatro Máquina passou, no último mês, pelo Festival Cena Brasil Internacional, que aconteceu em São Paulo e no Rio de Janeiro. Dentre os 23 grupos, o coletivo foi um dos seis selecionados para se apresentar em 2013 nos festivais de Avignon, na França, e de Edimburgo, na Escócia. Ambos já possuem mais de 60 anos de realização e estão entre as maiores mostras de artes do mundo. Com isso, o teatro local mais uma vez rompe fronteiras, entrando no hall internacional.

O Teatro Máquina ganhou visibilidade no Brasil após surpreender a crítica com o espetáculo O Cantil, inspirado em A Exceção e a Regra, de Bertolt Brecht. O trabalho passou pelas principais mostras de teatro do País e recebeu, em 2009, indicação ao Prêmio Shell ao lado de grandes nomes do teatro brasileiro. Para o Cena Brasil Internacional, que teve sua edição de estreia esse ano, os grupos foram selecionados por curadoria de Dane de Jade, Celso Curi e Sérgio Saboya. Em seguida, os coletivos votaram entre si e escolheram seis grupos para representarem o Brasil no exterior.

De São Paulo, o grupo Teatro Balagan foi selecionado com o espetáculo Prometheus – A Terra do Fogo. Do Rio de Janeiro, Histórias de Família, do grupo Amok Teatro, do qual a atriz cearense Christiane Góis faz parte, foi selecionado. A Marca da Água, do Armazém, e Ato de Comunhão, solo de Lautaro Vilo interpretado e dirigido por Gilberto Gawronski, também estão entre os cariocas escolhidos. A Tecelã, do coletivo Caixa do Elefante, de Porto Alegre, e Ivanov, do Máquina, são os trabalhos fora do eixo Rio-São Paulo que se destacaram.

Para o projeto se concluir, é preciso levantar fundos que possam bancar a ida dos grupos brasileiros ao exterior. A diretora do grupo cearense Fran Teixeira ainda não consegue dimensionar os valores para custear as apresentações durante os festivais, mas explica que a dinâmica de sustento e circulação dos coletivos artísticos na Europa é diferente da realidade brasileira, que ainda depende muito de políticas públicas. “Nós temos potencial, mas os grupos europeus conseguem se financiar sozinhos. Precisamos aprender um pouco disso, viver essa experiência porque a gente ainda depende muito de editais”, comenta.

Durante as apresentações no Brasil, responsáveis pelos festivais no exterior acompanharam os trabalhos nacionais. Sérgio Saboya, coordenador do Cena Brasil Internacional, garante que a parceria já está firmada, mas é necessário trabalhar para conseguir fundos que possam dar conta das apresentações dos grupos na Europa, desde passagens, hospedagens, alimentação, transporte de cenário, ajuda de custo, etc. “Depende de verba pública, que neste momento não está certa. Mas a expectativa é que isso se concretize”, almeja.

O pensamento de Fran é compartilhado com o de Sérgio. “No Brasil, cujo orçamento da cultura está totalmente calcado em subvenção, ficamos distantes deste mercado”, explica ele, indicando a autossuficiência dos grupos europeus. O coordenador complementa que mal há referências de outros coletivos nacionais que tenham participado dos festivais de Avignon e de Edimburgo. “Poucos grupos se aventuraram neste mercado por desconhecimento do que pode proporcionar para suas carreiras numa projeção internacional”, frisa.

Pé na estrada, pé no chão
Agora, o Máquina pode entrar de vez no circuito internacional, mas Fran faz questão de manter os pés no chão. “Essa experiência promete muitas oportunidades de intercâmbios com artistas e programadores de festivais. São muitas lições, mas temos que profissionalizar mais o grupo. Fico feliz, acho importante, mas não fico deslumbrada, tenho dimensão das dificuldades de levar seis grupos para fora”, destaca a diretora, que pretende dialogar com outros grupos selecionados para descobrir maneiras de se reinventar como financiadores de si mesmos.

O grupo completará uma década no ano que vem e tem se tornado cada vez mais referência para as artes cênicas não só no Ceará, mas em circuito nacional. “Eu acho que a gente vem trabalhando de forma muito dedicada, séria, nossas investigações tomam conta do grupo de forma muito autônoma. Esse é o chão que nos organiza”, diz ela, fazendo questão de ressaltar que, ainda assim, o grupo passa sempre por desafios na captação de recursos. Há dois anos, por exemplo, eles não vencem editais locais ou estaduais, mesmo se esforçando bastante para isso

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