MÁQUINA TEATRAL

por Maneco Nascimento

Bertolt Brecht, para exceções e regras, apareceu com qualidade de exibição a partir de uma obra sua: “A Exceção e a Regra”. A montagem do Grupo cearense “Teatro Máquina”foi vista no palco do Theatro 4 de Setembro, às 20h, com entrada Franca, para um público bem expressivo de atores e bailarinos, estudantes universitários e médios, curiosos e freqüentadores habituais das pautas daquela Casa.

A peça, “O Cantil”, de pesquisa experimental sobre texto original brechtiniano, concorre ao Brasil em projeto de Circulação Nordeste, por cinco capitais durante o mês de abril. Em Teresina, por onde começou a circulação, a temporada se finaliza para os dias 11 e 12 do corrente. A partir de Incentivo do Ministério da Cultura e Petrobrás, “O Cantil” confirma vida longa ao “Teatro Máquina.”

Um espetáculo delicado, seguro da proposta, dono do que quer apresentar e, essencialmente, de estética limpa. “Uma viagem sem tempo nem espaço definido. Dois homens seguem à procura de algo. Para o patrão a viagem é urgente e aterradora, para o empregado é apenas objeto de seu ganha-pão. Entre os dois se estabelece uma relação nos extremos da desconfiança total e da pura subserviência, relação essa transfigurada pela ausência/presença do cantil (…)” (o espetáculo/texto de apresentação de o cantil. Espetáculo do Teatro Máquina)

Com direção de Fran Teixeira, a encenação que a início cria quase uma estranheza natural do que se poderia esperar, vai aos poucos elementando situações que enredam a trama dramática com características para tragédia crítica, como requer o teatro distanciado de Brecht. A dramaturgia de pesquisa autoral do grupo imprime uma metalinguagem sobre linguagens.

Atores manipulados por outros atores. Títeres a mercê do poder do manipulador em que se vislumbra a dialética da força do opressor sobre oprimido, ilustrada pela estética, técnica e “domínio” do homem sobre o homem e para a arte de teatro de manipulação de bonecos-homens

“(…) os atores são estimulados ao desafio de representar bonecos em toda sua dimensão. Negar-se à possibilidade de construções expressivas é simultaneamente permitir que outro ator as dite e defina os movimentos necessários a cada ação.” (Idem)

Assim as personagens, bonecos-narradores e manipuladores-narradores vão tecendo o tempo e a mora de protagonistas e antagonistas. A magia da manipulação com o seu jogo de esconde o truque dá efeito real de beleza plástica. Que aos poucos vai sendo desvendada e refrescando a tragédia anunciada.

A luz, assim como a música composta e precisa, vai compondo a partitura do espetáculo e encantando o público magnetizado para silêncios e ruídos dos sentimentos humanos de ocultação e revelados para corpos dobrados que falam sem o verbo, mas apenas pela geografia do gênero textual das anatomias distendidas e controláveis.

O céu constelar emblematiza a noite como proximidade telúrica e distância pragmática entre as personagens dramáticas. Os rastros luminares, de caminho circular, ou foco das barracas de solidão no árido das relações patrão/empregado e lugar nenhum de um deserto físico apresentado são de plasticidade comovente. A cenografia é pronome, adjunto e verbo para dramaturgia escrita na cena.
O “carroção”, das cargas dramáticas, que se desloca de lá para cá e carrega memórias, de influência da cena oriental, repercute não só nova forma de pensar o olhar e a práxis teatral, mas reinventar a entrega e a resistência vistas nos atores sociais e cênicos bem definidos.

Figurinos, adereços, cores neutras, luz precisa, mágica de esconde e, depois, revela manipulação e manipulador, corpos “autômatos”, concentração e atuação distanciada, detalhes e economia expressionistas, senão teatro todo épico por pureza de entendimento, porém respostas da máquina teatral que compõe a sinfonia corporal de oralidade inaudível do objeto “O Cantil”.

Elenco superafinado, seja o das sombras, da semi-luz ou do todo descoberto. A perspectiva de anular-se, ceder espaço, se colocar em segundo plano situandopersonagem revelado através do “títere” mais humaniza a obra, torna-a + crítica e ganha a platéia ao desmistificar o teatro ocidental pela ótica do estudo e investimento à:

“(…) experimentação de técnicas de manipulação direta e aparente, investigando as relações possíveis entre ator e manipulador, ação e representação, repetição e descoberta gestual.” (a pesquisa/ texto de apresentação de o cantil. Espetáculo do Teatro Máquina), torna o teatro visto muito + vivo, mesmo que sob o falseamento e fingimento da vida que pulsa nas personagens manipuladas.

Ao final do espetáculo, durante a conversa sobre a montagem, um colega aproximou-se e quis saber minha opinião. Achei pleno. Ele inquiriu que gostou muito, mas que achava que “se fosse com bonecos seria muito melhor.” Respondi que não me parecia ser a proposta do Grupo. Encerrei o assunto.

Para melhor justiça, nada custa nomear os manipuladores/bonecos/narradores de “O Cantil”:

Fran Teixeira (direção); Levy Mota e Edivaldo Batista (produção); Aline Silva, Ana Luiza Rios, Edivaldo Batista, Márcio Medeiros, Levy Mota e Loreta Dialla (elenco); Frederico Teixeira (cenografia e arte gráfica); João Zabaleta (figurinos); Dustan Gallas (trilha sonora original e sonoplastia); Ramon Cavalcante(animação); Deyvison Teixeira e Walmick Campos (fotografia); Tomaz de Aquino (operador de luz) e Wellington Fonseka (operador de som).

“O Cantil”, um espetáculo do Teatro Máquina, uma rica e manufaturada ação da máquina teatral, abalizada a partir da segurança e compreensão dos signos composicionais da linguagem de cena.

Ao passar pelo Piauí abocanha prêmio do Teatro Excelência, longe do teatro morto, por desenvoltura aplicada em razão e sensibilidade transversalizada.

Fonte:  http://manekonascimento.blogspot.com.br

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