Teatro Máquina no lápis de Márcio Marciano

Márcio MarcianoO CANTIL
Ao contrário do que vinha acontecendo ao longo da programação do Encontro, O “Cantil”, espetáculo que o grupo Teatro Máquina, de Fortaleza, trouxe ao Zona de Transição foi apresentado no palco principal do TJA no dia seguinte à Demonstração de Trabalho, ocorrida no domingo.

Esta circunstância imprimiu à recepção do espetáculo – pelo menos da parte de quem esteve presente à demonstração, como é o meu caso – outra qualidade, uma vez que o substrato teórico do trabalho, apresentado na véspera, foi duplamente evidenciado. Particularidade que seria de menor importância, não fosse o rigor da investigação teórico-prática que orienta este jovem grupo de atores dirigidos pela pesquisadora Fran Teixeira.

De fato impressiona a meticulosidade do plano conceitual desta encenação marcada por forte apelo visual, em que a fala é subtraída, sendo o gesto das personagens o suporte privilegiado de uma comunicação que se evidencia menos pela subjetividade do que pela função social que cada uma delas desempenha.

Em cena, duas figuras humanas despersonalizadas (o figurino e a caracterização apagam os traços de individualidade, fazendo ressaltar os detalhes senão representativos de uma classe social, no mínimo emblemáticos de uma hierarquia entre elas), travam uma relação de necessária dependência.

O “Cantil” é uma livre adaptação da peça didática de Brecht “A exceção e a regra”, e mantém do original a história da viagem de um comerciante e seu carregador. Como em Brecht, o cantil – que contém a água necessária à sobrevivência na travessia do deserto – é o elemento de subversão da hierarquia entre “patrão” e “empregado” e será também o elemento precipitador do desfecho em que sobressai a lei do mais forte.

Em Brecht, o episódio serve de pretexto para o desmascaramento do caráter venal da Justiça burguesa, que faz prevalecer os interesses da classe dominante, sendo a atitude solidária do carregador – que é mal entendida pelo comerciante, a ponto de este sentir-se ameaçado e reagir matando o empregado em “legítima defesa” – uma exceção que confirma a cínica regra de que os miseráveis são violentos e estão dispostos a destruir os bons patrões.

Como os tempos são outros, tempos de sistemático confusionismo e de embaralhamento programático dos referenciais estéticos e políticos, o Teatro Máquina opta por uma arriscada síntese do episódio, eliminando seu caráter discursivo, conferindo ao público a responsabilidade da reflexão – ou mera fruição sensorial – do que ocorre na cena.

É uma escolha legítima, mas que traz como conseqüência – e o Grupo tem consciência disso – um deslocamento de foco do conteúdo, que pela contradição que comporta somente pode ser apresentado como um desconfortável problema que ultrapassa o juízo moral, para o pacato âmbito das digressões da forma, o que rebaixa sua capacidade de intervenção crítica.

Nessa perspectiva, a relação entre as duas figuras humanas apresenta-se como descrição estática, sendo sua progressão marcada menos pelo desenvolvimento dos acontecimentos humanos do que pela convenção da passagem do tempo, vista através dos quadros que se sucedem e que sugerem o dia e a noite.

Esse desfibramento das contradições internas da relação de mútua dependência entre patrão e empregado desvia o interesse do público para os efeitos plásticos das imagens. Contudo, como depois de certo tempo esses efeitos se repetem, o interesse também arrefece, de tal forma, que no final do espetáculo o estranhamento das primeiras imagens parece ceder a certo torpor do entendimento.

Fica a impressão do virtuosismo com que os atores manipuladores contracenam com seus pares tornados figuras humanas manipuláveis. Fica a impressão da inteligência do esquema criado. E fica, sobretudo, a vigorosa tentativa do Grupo Teatro Máquina de se pôr o desafio de uma releitura contemporânea da poética de Brecht, consciente das complexas implicações que esta decisão acarreta.

SOBRE A DEMONSTRAÇÃO DE TRABALHO
A sala de teatro recebeu a Demonstração de Trabalho do Grupo Teatro Máquina. Após uma bem planejada e didática explanação sobre os procedimentos metodológicos que orientam o trabalho do coletivo, feita por Fran Teixeira, sua diretora, os atores apresentaram um pequeno e instigante exercício, batizado pelo grupo “exercício da presença”, de forma a demonstrar na prática esses procedimentos. Em seguida, o público pôde assistir a um pequeno fragmento do espetáculo “O Cantil”, cuja criação se deu a partir dessa mesma orientação teórica.

Segundo Fran Teixeira, a pesquisa inaugural do grupo partiu de seu estudo pessoal da obra de Bertolt Brecht. Entretanto, mais do que uma filiação ao projeto brechtiano, interessa ao grupo experimentar, a partir de alguns princípios do teatro épico, suas interfaces com a Performance e a Dança-Teatro.

Ainda segundo a diretora, o Teatro Máquina pretende dizer menos pelo discurso do que pela expressão. O grupo procura “se apartar da palavra” e pôr em prática o preceito da poética brechtiana de mostrar com clareza, em vez de interpretar ou representar. Nesse sentido, o atual estágio da pesquisa do Teatro Máquina põe em pauta a dissociação entre forma e conteúdo, através da construção do gesto.

Márcio Marciano.

*Márcio Marciano é ex-Cia. do Latão, é fundador, diretor e dramaturgo do Coletivo de Teatro Alfenim (João Pessoa-PB). Viu o Teatro Máquina no encontro Zona de Transição, porjeto do Theatro José de Alencar (Fortaleza-CE).

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