“O Cantil” – Ética e Estética ainda hoje, ou a lembrança de Brecht (CRÍTICA – FIT)

O grupo cearense sediado em Fortaleza, Teatro Máquina está em atividades desde em 2003. Conforme anúncio feito após o espetáculo que assistimos, pudemos visitar o site da companhia onde verificamos que se trata de um jovem grupo promissor, sério e bastante consciente de suas escolhas estéticas. O espetáculo apresentado no FIT foi O Cantil.

Antes de a apresentação iniciar, ouviu-se uma longa gravação que descreveu, detalhadamente, os prêmios e apoios, as leis e os incentivos que o grupo recebeu para realização deste espetáculo. Nenhuma palavra sobre Bertolt Brecht. Por que dizemos isso? Simplesmente, porque o núcleo fabular que dá origem à dramaturgia do espetáculo é tributário de uma peça da fase didática de Brecht, A exceção e a regra. Afirmamos isso, pois o espetáculo do Teatro Máquina possui tantas características comuns com esta peça, que fica difícil dizer o contrário. Os personagens são os mesmos: o Comerciante, ou Negociante, ou Patrão como é empregado na sinopse; depois vem o Cule ou o Carregador ou ainda o Empregado, sempre conforme a sinopse da programação do FIT; a cena do sonho do Negociante quando é assombrado e depois despertado pelo pesadelo da culpa; o jogo da água no cantil; a exploração incessante do Negociante sobre o Carregador; as diversas paradas com o Negociante observando com binóculo o local aonde ele quer chegar (Urga no original); o comportamento egoísta, prepotente, vil, violento e arrogante do Negociante em oposição à submissão do Carregador; o gesto solidário do Carregador que ao fim e ao cabo da marcha é mal interpretado por seu Patrão, que acaba assassinando-o. Isto é, Brecht queria demonstrar que, o Negociante impulsionado pelo “medo de classe”, atira para depois perguntar; pois só se certificaria depois da morte do inocente, acerca do que significara, de fato, aquele gesto. Gesto esse que simplesmente demonstrava a possível exceção daquele Carregador, em relação aos outros da sua classe. Apesar de explorado e submetido ao Negociante, o Empregado fora capaz de um gesto de humanidade, fraternidade, pagando por isso mesmo com sua própria vida.

Por alguma sorte, no dia seguinte ao espetáculo, nos foi entregue um belo programa, específico sobre O Cantil. Esse programa não fora distribuído ao público assistente, supomos. O público presente às representações na UNIP não deve ter tido acesso ao mesmo programa que nós, Leitores Críticos tivemos posteriormente. Em parte, o programa torna pública a apropriação que o Teatro Máquina faz da peça de Brecht, porém, não explicita os laços políticos, estéticos e poéticos dessa apropriação.

Como nos deixa ver o espetáculo, e como devem saber os integrantes do Teatro Máquina, a fábula de Brecht é bem mais complexa do que o fragmento apresentado, que fica inclusive inconcluso devido a ausência dos demais personagens que possibilitam a operação dialética proposta na peça, em seu desdobramento na encenação. A fábula, contada da forma como nos apresentou o Teatro Máquina, acaba por gerar certa frustração em termos de expectativa. — Matou por que? Matou, e daí? — Essa expectativa é gerada pela apropriação dramatúrgica sem qualquer re-elaboração do ponto de vista da própria fábula. Como desdobramento da ação em Brecht, após a morte, haveria ainda o julgamento do Negociante e uma discussão sobre os meandros da justiça e sobre o valor do gesto mal interpretado. Evidente que nada disso é apresentado ao espectador do FIT, visto que o Teatro Máquina privilegiou a exibição de um pequeno núcleo da fábula brechtiana que possibilitava a demonstração de uma técnica corporal complexa.

Entretanto, como dizia o próprio Brecht o problema do teatro não seria só relativo aos novos conteúdos, mas também às novas formas. E em alguma media é com essa forma nova que o Teatro Máquina está se atritando em sua pesquisa — “Nesse trabalho, o Teatro Máquina pretende enveredar pelo universo oriental, através do estudo e da experimentação de técnicas de manipulação direta e aparente, investigando as relações possíveis entre ator e manipulador, ação e representação, repetição e descoberta gestual” —. (Programa da peça). A peça de Brecht foi escrita para tornar os atores sociais mais conscientes acerca do contrato social que permeia as relações humanas. Como peça didática tem pouco a oferecer ao espectador a sua intenção originária está na transformação daqueles que experimentam a peça. E nesse sentido, nos perguntamos: Qual a pertinência dos atores / personagens (O Patrão e o Empregado) serem manipulados por outros atores como se fossem marionetes? Que diferencial isso agrega à encenação e ou à fábula? Unicamente, para “enfatizar a metáfora da manipulação, estendendo a relação entre os personagens ficcionais para relação dos atores, através das figuras condensadas do boneco-narrador e do manipulador-narrador”, como nos informa a sinopse do Caderno do FIT? Tal objetivo como exercício pode ser mantido no âmbito do privado, sem a obrigação de se fazer público.

A esse respeito é muito satisfatório o resultado que alcança o Théâtre du Soleil dirigido por Arianne Mnouchkine, em Paris, quando da encenação de Tambours sur la digue. Trata-se de um exemplo significativo. Para montagem dessa fábula oriental, como provavelmente os integrantes do Teatro Máquina devem ter notícias, mas o grande público não, o espetáculo é realizado por três grupos de atores. O primeiro grupo de atores manipula o segundo grupo de atores / personagens e o terceiro grupo dos atores diz as falas e os textos dos personagens / atores manipulados.

A título de experiência, em termos de técnica de manipulação, poderíamos lembrar ainda da milenar técnica japonesa do bunraku, onde três atores, o mais escondido possível da platéia, manipulam um boneco-personagem, um boneco de verdade. Nesse caso, não haveria a presença de atores sendo manipulados, mas exclusivamente o boneco e seus manipuladores.

Brecht trabalhou para revelar a máquina teatral ao espectador. Ele trabalhou para influir na consciência da assistência sobre os meandros das relações sociais. É por isso que ele quebra com o ilusionismo, com a “magia do teatro” à maneira anestésica como nos apresentam os espetáculos do Cirque du Soleil.

Apesar de toda ambientação poética, com um belíssimo céu estrelado; barracas que surgem e desaparecem; uma bela caracterização dos bonecos; projeção de animações, indagamos: Como que esse jogo de manipulação pode agregar valor poético, político e estético à cena teatral e marcar seu diferencial acerca da narrativa? Reside aí a pesquisa e não é fácil responder. É para pensarmos.

Podemos supor que a execução da pantomima ou do mimodrama, que conta a história da malfadada viagem, do Patrão e do Empregado dispensa a presença de manipuladores. Entre outras contradições até, porque os rostos dos manipuladores passam quase que a substituir, completamente, a ausência de um olhar a partir do “boneco-ator”. O jogo corporal dos atores “manipulados” parece possuir autonomia suficientemente capaz de construir e estabelecer os fios da própria narrativa de suas ações. A iluminação parece estar ancorada no regime noturno para encobrir o ilusionismo. A singela fábula de Brecht é diurna e solar irradia razão e lucidez.

O Teatro Máquina vem de uma região onde se sabe que o imaginário local é o indutor, majoritariamente, da fabricação de inúmeras formas de comicidade. Nesse sentido é importante que o grupo seja fortemente encorajado para poder estabelecer um contraponto à essa realidade, por meio de suas pesquisas, e se estabelecer como uma outra opção diversificando o espectro cultural de sua localidade. Porém, nesse sentido seria importante uma meditação mais vertical, deste sério coletivo teatral, sobre as relações entre ética e estética, política e teatro, para um adensamento de suas próprias pretensões artísticas. Não criamos do nada. Somos irresponsáveis pelo futuro, se não damos conta do presente. E para tanto somos igualmente responsáveis por nossas apropriações daqueles que vieram antes de nós.

Walter Lima Torres
Leitor Crítico
wlimatorres@uol.com.br
http://www.estudosteatrais.blogspot.com/
http://www.festivalriopreto.com.br

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