impressões sobre espetáculos – fiac bahia – o cantil

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Não vou falar de todos os espetáculos. As escolhas foram determinadas por critérios de ordem prática, por interesse estético ou simples curiosidade. Deixei de ver Sizwe Banzi Está Morto, texto dos sul-africanos Athol Fugard, John Kani e Wiston Ntshona direção de Peter Brook. De Athol Fugard conhecia Laços de Sangue e Mestre Haroldo. O fato de não ter ido ver uma encenação de Peter Brook é inexplicável, mas não tive vontade.

Corri pra assistir O Cantil, uma adaptação do texto A Exceção e a Regra de Bertolt Brecht realizada pelo Teatro Máquina do Ceará. Direção, dramaturgia e produção de Fran Teixeira. Concisão, poesia e domínio da linguagem cênica marcam o espetáculo cearense. Quatro atores em cena. Dois como bonecos, o Patrão e o Empregado; dois como manipuladores desses homens-bonecos. Perfeição! Por certo exagero meu. A perfeição indica um ponto morto, já que dele não sai mais nada. Não é o que se vê na cena de O Cantil. O domínio técnico está a serviço de uma idéia teatral muito bem resolvida. Certamente, Brecht não cansaria de aplaudir, porque a sua história sobre explorador e explorado explicita-se em cena de tal forma que nem a falta da palavra é sentida, embora no fim do espetáculo eu tenha manifestado a vontade de ouvi-la. Mas depois de refletir sobre o espetáculo, cheguei à certeza de que a palavra transformada em ação bastava. Compreendia-se todo o entrecho da peça adaptada e a relação entre os personagens sem a intromissão do verbo.

No palco aberto e preto, destacam-se os dois personagens vestidos de branco e os dois manipuladores. Dos manipuladores vemos o rosto. Estes são ajudados por dois contra-regras que entram esporadicamente para compor o jogo de cena, retirando alguns objetos ou fazendo aparecer as duas barracas para cena de acampamento. Um carro conduzido pelo Empregado leva sacos também brancos e cestos de vime. A luz é precisa e recorta os personagens em sua viagem. As cenas noturnas são marcadas por um belo e simples céu estrelado. Estabelecida a moldura mergulha-se nessa viagem cujo final já presumimos.

Com esse espetáculo o Teatro Máquina coloca em cena os dados de sua pesquisa artística e revela que a magia do teatro não se dá por truques ilusionistas, visto que constrói a sua cena utilizando-se de conceitos do teatro brechtiano, relendo-os de maneira muito particular, sem a submissão que muitas vezes ocorre quando a leitura das teses do dramaturgo alemão é feita ao pé da letra e de maneira mecânica.

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Escrito por Raimundo Matos de Leão em seu blog.

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3 pensamentos sobre “impressões sobre espetáculos – fiac bahia – o cantil

  1. Elaine Rodrigues disse:

    Estive nessa ultima sexta 14/11/08 para assistir um espetáculo de um grupo até então desconhecido para minha pessoa. Vocês passam agora a ser uma referência para meu entendimento em relação a tudo que se diz respeito ao oficio teatral.

    No começo o incomodo de querer ouvir um diálogo era tanto que comecei a me remexer na cadeira, mas o passar do espetáculo nos mostra que as palavras ali não era necessário .Não ! Mesmo !

    Primeiro , falar um pouco da relação entre os atores que no meu ver foi espetacular , a confiança, serenidade e seriedade presentes em cada gesto é simplesmente impinotizador.

    Segundo, falar do trabalho corporal dos atores, maaaaarraaaaavilhoso, encantador e motivador.Parabêns!

    Em terceiro , é muito prazeroso você sair de um espetáculo com uma lição , mil pensamentos e talvez varias luzes no fim do tunel. O espetaculo O Cantil , traz essa coisa do pensar , refletir e com certeza o querer mudar. Somos dominados e a todo momento comandados pelos os outros e nem se quer percebemos. Muitas vezes a nossa ansia de querer algo nos faz esquecer e nem ver o que anda acontecendo ao nosso redor .

    Hoje um mundo está dominado ! Cabe a nós se permitir o dominio.

    Valeu atores!

  2. Roberto disse:

    Na boa… achei O CANTIL horrível!!! muito chata mesmo… sou de São José do Rio Preto e assisti ela no FIT aqui…

    nada a vê essa peça……….

    Saí revoltado… gostaria de ter meu dinheiro devolvido… minha namorada dormiu de roncar… e eu lutei contra o sono também………………

    • Aline Silva disse:

      Roberto, toda obra de arte tem o intuito de comunicar algo e de uma determinada forma. Nem sempre a forma é fácil ou cômoda. Às vezes devemos permitir que a compreensão nos chegue por outras vias do sentir, e digo isso para que você se prepare e esteja disposto quando for ver outras obras por que O cantil nem é tão abstrata assim, pelo contrário, sua estrutura dramática é bem lógica, mas por algum motivo deve ter sido difícil pra você ficar atento e compreender mesmo assim né.

      Um abraço.

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